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Ao longo dos últimos meses, fui assistindo calado a inúmeras tentativas de denegrir a minha imagem, o meu nome, o meu trabalho. Tentativas baixas, de gente mesquinha, completamente ignorante em matéria de humor e sem qualquer tipo de rigor profissional. Televisões, revistas, jornais, internet. Famosos e anónimos. Todos falaram de humor, de limites, de bom gosto, todos atiraram bitaites sobre a minha maneira de ser e de pensar.

A minha escolha foi, até hoje, não comentar, não ver, não ler, não dar importância à ignorância. Acontece que a ignorância deu aso à estupidez e esta ao ódio e à mentira. E eu estou há demasiado tempo calado, há demasiado tempo a compactuar com disparates, há demasiado tempo a ser alvo de análises transviadas de pessoas sem estabilidade emocional.

Ando nisto há 11 anos. Em 11 anos, fiz apenas uma coisa: piadas.
Fiz piadas. Ofensivas, sem graça, infames, fora de tempo, revoltantes, diferentes.
Fiz piadas. Algumas muito boas. Muitas, muito boas, felizmente.
Não fodi trabalho a colegas, não minei projectos alheios em corredores de TV, não falei mal de outros estilos, não perdi tempo a olhar para o lado ou muito menos a invejar o trabalho dos outros.
Fiz piadas.

Essas piadas, em 11 anos, originaram vários programas de Televisão que inclusivamente chegaram à Netflix. Dois livros, um deles editado pela Leya. Dois DVDs. Quatro solos de stand-up comedy – três transmitidos na TV, por dois grupos de comunicação distintos. E tantas, tantas horas de gargalhadas.
Isto não acontece por acaso. É resultado do trabalho feito com profissionalismo, apoiado por uma equipa que dá bem mais do que tudo, neste pântano que é o meio artístico português.

Ao longo destes 11 anos fui fiel a duas coisas: ao meu estilo e à minha espinha dorsal. Nunca alterei a minha posição. Nunca pedi desculpas. Nunca aceitei um trabalho em que não acreditava para fazer disso um bom emprego. Recusei parcerias, recusei trocar fazer o humor que gosto por bons contratos televisivos. Nunca movi as minhas convicções sempre que a merda bateu na ventoinha, e se bateu! Aguentei processos, petições, ameaças, ódios. Os açorianos, os góticos, processos, a ERC… foda-se. Fiz piadas com figuras públicas, levei com backlash das figuras públicas… é normal.
Esta segunda-feira, “voltei a fazer das minhas”.
Fiz uma piada.

Uma piada sobre uma tragédia, como sempre fiz, como fazem os que admiro. Completamente diferente das que faço por exemplo em palco, onde falo acima de tudo da minha vida e experiências.
Uma piada fiel ao meu estilo. Uma piada que pode ser vista como nojenta, descabida, de mau gosto, que deu a volta ao estômago, que foi demasiado cedo, que é cruel… enfim. É normal, compreensível e aceitável. Em muitos casos, é isso mesmo que o humor negro deve fazer. Provocar. Ir contra a corrente. Desafiar. Indignar.

É igualmente válido não acharem piada. Num país pródigo em incompetência, tornou-se habitual esperar que os humoristas tenham sempre piada. Como se por algum motivo, todos os males do mundo se abatessem nas costas do autor de uma graçola que bateu ao lado. Em Portugal, um gajo que destrói a vida de centenas de famílias é o “dono disto tudo”. Um humorista que falhou uma piada ou tocou num tema que não gostamos é um filho da puta que devia morrer.

A cartada do “ter piada” é aqui especialmente curiosa. Sorrio sempre que leio que o problema não é a temática, é não ter tido piada. Mas achar piada não é algo extraordinariamente pessoal? E se tu não achaste, onde fica a posição, opinião, direito dos milhares que acharam (e os outros que iam achar, se não me apagarem a piada e bloquearem o meu FB pessoal como aconteceu).

O que já não posso achar válido, é esta ideia ignorante, retrógrada, mesquinha, baixa e mentirosa que se quer passar para a opinião pública de que um humorista faz representar a sua opinião quando está a fazer uma piada. Embaraça-me e desgasta-me de uma forma que não imaginam, em pleno 2016, 11 anos depois de começar a fazer isto, ainda ter de explicar diariamente que uma piada de um humorista é uma coisa, a sua opinião é outra coisa.

São estas mentiras, repetidas de forma nojenta quer por gente ignorante, quer por gente toldada de inveja, que eu tenho de desmascarar.
A mentira do “ele fez uma piada sobre violações, logo ele é um violador” vomitadas em crónica de jornal por um político(?) imberbe e irresponsável ainda a cheirar a ganza.

A mentira do “ele falou de mulheres, é um machista”.

A farsa que o CM, a Nova Gente e outra imprensa de WC criou com o Cancro VIP. Transformaram um texto que falava sobre a relação putrefacta entre media e doentes famosos com Cancro, numa piada sobre a Sofia Ribeiro. Num texto que aludia sobretudo a jornalismo de sarjeta e ao imaginário do que aconteceu com a Sofia, claro, mas também com o Manuel Forjaz, com a Princesa Nonô ou com a Laura Passos Coelho. Naquela altura, o que dava audiência era aquilo e toca de publicar asneiras. Soundbites descartáveis. Ainda hoje estou à espera que alguém me conte a piada, estou curioso para saber qual era.

Gajos sem cara para levar uma chapada a oferecerem-me chapadas na Televisão.

Apresentadores em directo, à tarde e com crianças a ver, a incitar à violência contra um humorista.

E uma ilusionista amadora que semanas antes fez uma biopsia pela TV – sim, deitou umas cartas de sueca numa mesa comprada na Natura e disse a um telespectador para estar descansado, que não tinha Cancro – a dizer que com as doenças não se brinca.

Tudo isto é normal e maravilhoso. Agora, piadas? Piadas é que não, caralho!

Estes hipócritas, são os mesmos que sempre que faço uma piada com Cancro, me dizem que eu só brinco porque nunca sofri na pele e o que merecia era que a minha família toda morresse com essa doença. Imbecis que desconhecem que depois de uma mãe, avó e tio com Cancro, a mim ninguém me ensina como me movimentar nos corredores do IPO. Intolerantes que se ofenderam com uma piada, mas não têm problemas em desejar a morte desse parodiante libertino. Ignorantes, que por falta de controlo emocional para brincar com uma desgraça, assumem que o meu sentido de humor relativo ao tema é falta de experiência com a mesma.

E depois, o dia de ontem. Como posso eu esperar que o público em geral perceba que uma piada é apenas uma piada, quando em Portugal, alguns parasitas do meio humorístico contribuem para destruir esta ideia? Pessoas que nem por um minuto me entram no pensamento, mas que adormecem e acordam a pensar em mim. Honestamente não compreendo esta obsessão. Esta inveja. Este medo. É por não papar grupos de ninguém? É por me estar a cagar para o establishment? É pelas salas esgotadas? É por não pedir desculpas? É por ter programas na cabo que em humor dão 30 a zero a programas de orçamento cinquenta vezes maior? Ou simplesmente, por eu ser feliz, genuinamente feliz com as minhas escolhas e opções de vida?

Estes ataques destes abutres do humor, surgem sempre do mesmo lado, ao melhor estilo cobarde do “pontapeia-o que ele está em baixo”. Há para todos os gostos:

Gajos que agora se preocupam com o papel social do humor, mas que passaram horas de Levanta-te e Ri’s a chamar paneleiro ao Castelo Branco.

Arautos do feminismo que me classificam como machista, com o currículo cheio de horas de TV a chamar puta à Teresa Guilherme, porque segundo eles, gostava de meninos.

Até especialistas do humor de peruca e bigode postiço do air-time estatal ontem concluíram que eu sou homofóbico. O castigo? Ter um filho gay. Sim, leram bem. Era esse o castigo sugerido pela infeliz revisteira.
Fazer uma piada sobre gays? – homofobia.
Destilar ódio e desejar que alguém tenha um filho homossexual? – boa cidadania e respeito pelos homossexuais.

É esta hipocrisia de merda que me enoja e não me permite mais estar calado.

Não se preocupem, que eu se um dia tiver um filho e ele for homossexual vai ser muito amado e irá aprender a fazer broches de sonho porque o pai quer que ele seja feliz e acima de tudo competente. E levo-o a todo o lado e uso pocket squares a combinar. E se me sugerirem que sou “paneleiro” como muitos homossexuais fizeram ontem, eu reajo com um sorriso. Porque a ideia de alguém pensar que eu sou “paneleiro” – é assim que me é dito – não me ofende. Quanto muito é um elogio ao meu guarda-roupa. Mas ofende-me chamarem-me homofóbico, apenas porque fiz uma piada. Ofende-me, porque é mentira, e porque me caracteriza como um labrego, ignorante e preconceituoso.
E chateia-me que publicamente defenda o casamento e adoção gay, de micro na mão, com milhares de testemunhas a assistir – no humor não temos de dar a nossa opinião, mas no Je Suis Cordes, dei-a – mas se entretanto faço uma piada, sou homofóbico. É com esta estupidez que eu lido no meu dia-a-dia.

Ontem, perdi conta às mensagens enviadas por homossexuais a ameaçarem-me de morte. É engraçado… pessoas historicamente perseguidas pelas suas diferenças a quererem a morte de uma pessoa, apenas porque… pensa de maneira diferente o humor. A vida às vezes consegue ser irónica como o caralho, não consegue? Para esta gente, liberdade, escolha ou individualidade são palavras que só fazem sentido se forem aplicadas ao que fazem com rabo.
Fisting? Uma escolha.
Humor? Olha aí o respeito antes que te dê um tiro, meu cabrão!

Não imaginam o quão cansativo para mim é falar nos limites do humor e na liberdade de expressão. Já mete nojo esta conversa. Mas se a igualdade existe e se deve exigir para, por exemplo, homossexuais, também tem de existir para humoristas. Mas infelizmente não existe. Porque se um homossexual não é livre quando é atacado pelo que é – seja online, na rua ou na imprensa – não me venham dizer que um humorista que recebe 100 ameaças de morte por causa de uma piada é um humorista livre.

Tudo o que faço profissionalmente é motivado por amor. Eu perco o amigo, mas não perco a oportunidade da piada. A minha paixão pelo humor negro, por piadas soltas, por sketches descabidos, por partilhar gargalhadas com amigos ou desconhecidos que riem de tudo descomplexadamente, pelos novos miúdos que aparecem e que experimentam coisas novas. Algumas coisas más, outras promissoras. Não os destruam. Protejam-nos. Não os afastem. Incentivem-nos. É difícil, esta merda. E nós precisamos da mudança. Precisamos da diferença. Precisamos de alternativas.

Apesar de tudo o que disse, apercebi-me nas últimas horas que ao longo destes anos cometi um erro: dar às pessoas o beneficio da dúvida. Assumir que têm inteligência e estrutura emocional para compreender uma piada. Tratei-as online, como as trato ao vivo. Meu deus, que ingenuidade!
Os acontecimentos dos últimos tempos tornaram claro para mim que em plataformas como o Facebook (e não só) não é mais possível criar uma relação de interacção lógica, uma troca de ideias válida, um vislumbre de educação e abertura de espírito ou discussão. As redes sociais hoje em dia são depositórios de raivas, frustrações, falhanços pessoais e ódios mesquinhos. É inacreditável que se queimem livros e se criem eventos para linchar escritores em 2016. É absurdo que um gajo como o Markl passe dois dias a ser ameaçado de morte porque sorriu na TV sobre um disparate qualquer em 1987. (E sim, o Markl não é meu amigo e faz um humor que está nos antípodas do meu, mas que eu me cubra de vergonha quando um dia um humorista for atacado e eu não lhe estender a mão para o ajudar). É inaceitável ler, diariamente, a maneira nojenta como as pessoas se dirigem umas às outras nas caixas de comentários, onde o “bom dia” é substituído por “olha lá, ó meu monte de merda” e como resposta temos “se gostas disto és atrasado mental, meu filho da puta”.

Eu criei as minhas redes sociais para estar perto das pessoas que gostam do meu humor. Para divulgar shows e interagir com pessoas normais. Olho hoje para isto e percebo que perco mais tempo com pessoas motivadas pelo ódio do que com as que me apetecia realmente interagir.
Pior! Essas mesmas pessoas, esse mesmo ódio persegue e hostiliza os apreciadores de humor negro. Vocês não acreditam na quantidade de pessoas que comentam comigo que receberam ameaças e insultos na inbox por serem apreciadores deste humor. Fazer uma piada é bullying. Perseguir humoristas e quem os segue, deve ser desporto.

O Facebook é por hoje, a maior ferramenta pidesca desde os tempos da própria PIDE. Um antro de chibos e de frustrados profissionais, com brigadas do politicamente correcto formadas a preceito e com páginas próprias, que diariamente reúnem e analisam conteúdos para mais tarde os denunciarem ao todo poderoso e autista Salazukerberg.

Fazer humor nas redes sociais tornou-se no desporto mais radical da história. É o mesmo que entrar num manicómio e esperar ter uma conversa normal com os doentes. É loucura. Um manicómio que define o que pode ou não ser dito. Fizeste uma piada?
– Demasiado cedo.
– Não tem piada.
– Ofende-me.
– O ângulo é sobre o oprimido, por favor apaga e faz com o ângulo sobre o opressor.
– Mata-te.

O que eu quero dizer a estas baratas digitais é que com estas regras, eu não quero brincar. Neste lodo, eu não vou brincar mais. Eu saí do manicómio.
Mas vocês, fiquem. Fiquem com os humoristas on-demand. Fiquem com os plagiadores, fiquem com a baunilha. Fiquem com músicas estéreis, fiquem com piadas respeitosas. Fiquem com o standard, com o banal, com o igual. Fiquem com os humoristas moralistas. Vocês merecem-se.

Quanto aos outros, aos que seguem porque gostam, aos que me conhecem, aos muitos humoristas com quem partilho admiração mútua, às pessoas que acham graça e se riem sem vergonha, em breve sai a II série do Very Typical, o podcast chega depois do Verão e o último Je Suis Cordes acontece em Braga, dia 30.
Vocês saberão sempre onde me encontrar.

E especialmente aos que exibem com orgulho bilhetes guardados, de um, dois, três ou quatro solos, em breve vão ter na mão o bilhete do meu quinto solo.
Porque vocês, que me permitiram realizar o meu sonho de viver só do que mais amo… vocês não me perderão nunca.

RSC